sábado, 29 de agosto de 2026

Hiromi Uehara


Hiromi Uehara 

A força, a liberdade e a imaginação do jazz contemporâneo

Poucos músicos conseguiram transformar o piano em uma experiência tão física, energética e cinematográfica quanto Hiromi Uehara. Sua música parece estar sempre em movimento: começa em um pequeno motivo, cresce, acelera, muda de direção e, quando menos esperamos, explode em uma mistura de jazz, rock, música clássica, funk e improvisação.
Mais do que uma pianista virtuosa, Hiromi representa uma das faces mais criativas do jazz contemporâneo: aquela que não aceita fronteiras rígidas entre estilos.









O começo de uma trajetória extraordinária

Nascida em Hamamatsu, no Japão, em 1979, Hiromi começou a estudar piano aos seis anos de idade. Desde muito cedo, porém, sua relação com a música não se limitava à interpretação. Ela também estudava composição e já demonstrava interesse por diferentes linguagens musicais. Aos 17 anos, aconteceu um encontro que marcaria sua trajetória: Hiromi tocou com Chick Corea em um concerto no Japão. O contato com um dos grandes nomes do jazz moderno ajudou a confirmar que aquele caminho poderia levá-la muito além da formação clássica.









Em 1999, Hiromi mudou-se para os Estados Unidos para estudar no Berklee College of Music, em Boston. Durante esse período, teve contato com diferentes músicos e foi orientada pelo lendário pianista Ahmad Jamal, uma influência importante em sua formação.
Mas Hiromi não queria simplesmente reproduzir aquilo que já existia.
Ela queria descobrir sua própria linguagem.
Another Mind: o nascimento de uma nova voz
Em 2003, veio o álbum Another Mind, seu primeiro trabalho internacional. O disco apresentou ao mundo uma pianista que parecia não ter interesse em escolher apenas um caminho. Jazz estava ali. Música clássica também. Rock, música contemporânea, virtuosismo e improvisação faziam parte do mesmo universo.









A própria Hiromi sempre demonstrou resistência em colocar sua música dentro de uma única categoria. Em uma declaração sobre Another Mind, ela explicou que preferia deixar que outras pessoas definissem sua música, enquanto ela simplesmente unia aquilo que havia aprendido e ouvido. Essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender sua carreira.
Hiromi não trata os gêneros musicais como caixas separadas. Para ela, são ferramentas.
Uma pianista que transformou velocidade em linguagem. Nos trabalhos seguintes, Hiromi desenvolveu uma identidade cada vez mais reconhecível. Álbuns como Brain, Spiral, Time Control e Beyond Standard mostraram uma artista interessada tanto na complexidade musical quanto na comunicação com o público. Sua técnica é impressionante, mas o mais interessante não é simplesmente a quantidade de notas que ela consegue tocar. É a maneira como utiliza a técnica para construir narrativa.









Hiromi pode tocar passagens extremamente rápidas e precisas e, segundos depois, reduzir tudo a uma frase delicada. Pode construir uma sequência aparentemente caótica e transformá-la em uma melodia memorável. Seu virtuosismo não existe apenas para impressionar. Ele é parte de sua linguagem. Sonicbloom e a expansão do jazz. Um dos momentos mais interessantes de sua carreira aconteceu com o projeto Hiromi's Sonicbloom. A formação reunia Hiromi nos teclados, David Fiuczynski na guitarra, Tony Grey no baixo e Martin Valihora na bateria. O projeto explorava uma sonoridade mais elétrica e experimental. O álbum Time Control, de 2007, e posteriormente Beyond Standard, de 2008, levaram ainda mais longe essa mistura entre jazz, rock e música eletrônica. E é justamente nesse período que o nome de Tony Grey aparece de maneira muito importante na trajetória de Hiromi. O registro Hiromi's Sonicbloom Live in Concert, gravado em 2007 no Tokyo International Forum, apresenta Hiromi, David Fiuczynski, Tony Grey e Martin Valihora. Para quem gosta de contrabaixo, esse material é especialmente interessante porque mostra como o baixo pode funcionar não apenas como sustentação harmônica, mas como uma voz ativa dentro de uma banda de jazz fusion.




Do trio ao universo do jazz contemporâneo

Ao longo dos anos, Hiromi continuou modificando suas formações. Passou por diferentes configurações de trio, trabalhou com grandes músicos e também desenvolveu projetos solo. Em 2008, lançou Duet, trabalho realizado com Chick Corea. Em 2011, participou do Stanley Clarke Band featuring Hiromi, álbum que recebeu o Grammy de Melhor Álbum de Jazz Contemporâneo. Essas colaborações mostram uma característica fundamental de sua carreira: Hiromi nunca deixou de dialogar com diferentes gerações do jazz. Ela consegue conversar com músicos que construíram a história do gênero e, ao mesmo tempo, apresentar uma linguagem que pertence claramente ao século XXI.












O piano como uma banda inteira

Talvez uma das características mais fascinantes de Hiromi seja a maneira como ela utiliza o piano. Quando toca ao vivo, muitas vezes parece que existem vários músicos dentro dela.
A mão esquerda pode criar uma linha de baixo poderosa enquanto a direita constrói acordes, melodias e frases extremamente rápidas. De repente, o instrumento deixa de parecer apenas um piano e passa a funcionar como uma pequena orquestra. Essa característica também explica por que suas apresentações ao vivo são tão importantes. Hiromi não é apenas uma artista para ser ouvida. É uma artista para ser vista. Seu corpo acompanha a música, suas mãos parecem participar fisicamente de cada frase e sua expressão muda junto com a dinâmica da composição.


Silver Lining Suite e a busca por novas possibilidades

Em 2021, Hiromi apresentou Silver Lining Suite, um projeto que novamente expandiu sua paleta sonora, desta vez incorporando um quarteto de cordas. Mesmo depois de quase duas décadas de carreira, ela continuava procurando novas combinações. Isso é importante porque revela algo fundamental sobre sua personalidade artística: Hiromi não parece interessada em repetir a fórmula que funcionou ontem.
Ela prefere descobrir o que pode acontecer amanhã.

Blue Giant: quando o jazz chega ao cinema

Em 2023, Hiromi assumiu a direção musical do filme de animação japonês Blue Giant, baseado no famoso mangá sobre jazz. O trabalho mostrou outra dimensão de sua criatividade: a capacidade de utilizar o jazz para construir personagens, emoções e narrativa cinematográfica. O projeto recebeu o prêmio de Melhor Música no Japan Academy Prize. Foi mais uma demonstração de que sua música ultrapassa o ambiente tradicional dos clubes e festivais de jazz.


Sonicwonder Hiromi nopresente

Em 2023 surgiu uma nova fase com Hiromi's Sonicwonder. A formação reúne Hiromi no piano e teclados, Adam O'Farrill no trompete, Hadrien Feraud no baixo e Gene Coye na bateria. O primeiro álbum, Sonicwonderland, apresentou novamente uma Hiromi mais elétrica, utilizando sintetizadores e teclados para construir uma sonoridade pesada, moderna e extremamente dinâmica. 

Em 2025 veio OUT THERE, segundo álbum do projeto, gravado em Nova York em 2024. O disco inclui uma nova versão de XYZ, composição que já aparecia em Another Mind, conectando diretamente a Hiromi do presente com aquela jovem pianista que surgiu internacionalmente em 2003. É quase como se ela estivesse revisitando o próprio passado sem deixar de olhar para o futuro.

O que Hiromi representa para o jazz contemporâneo

Hiromi representa, acima de tudo, liberdade. Ela mostra que o jazz contemporâneo não precisa escolher entre tradição e inovação. Pode existir swing e música clássica. Pode existir improvisação e composição rigorosa. Pode existir piano acústico e sintetizador. Pode existir jazz e rock. Pode existir virtuosismo e emoção. E talvez essa seja sua maior contribuição. Hiromi não tenta destruir a tradição do jazz. Ela conversa com ela. É possível ouvir ecos de grandes pianistas da história, mas também perceber uma personalidade completamente própria. Sua música carrega referências, mas não vive de nostalgia. Ela transforma essas referências em algo novo.


Uma artista que continua em movimento

Em 2026, Hiromi continua ativa internacionalmente com o Hiromi's Sonicwonder, realizando apresentações e mantendo uma carreira que já atravessa mais de duas décadas. Seu próprio site registra novas turnês e atividades ao longo de 2026. E talvez seja justamente isso que torne sua trajetória tão interessante. Hiromi começou como uma jovem pianista japonesa apaixonada por música, estudou com grandes mestres, encontrou Chick Corea ainda adolescente, passou pelo Berklee, conquistou reconhecimento internacional e construiu uma carreira ao lado de alguns dos maiores músicos do jazz. Mas nunca parece ter chegado a um ponto em que pudesse simplesmente parar. Ela continua procurando. Continua experimentando. Continua mudando. E é exatamente por isso que Hiromi Uehara representa tão bem o jazz contemporâneo. Ela nos lembra que o jazz não é apenas um gênero musical.É uma maneira de pensar. Uma maneira de improvisar. Uma maneira de transformar aquilo que já existe em alguma coisa que ainda não existia.Hiromi não toca apenas jazz. Ela mostra até onde o jazz ainda pode chegar.




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