A força, a liberdade e a imaginação do jazz contemporâneo
Mais do que uma pianista virtuosa, Hiromi representa uma das faces mais criativas do jazz contemporâneo: aquela que não aceita fronteiras rígidas entre estilos.
Mas Hiromi não queria simplesmente reproduzir aquilo que já existia.
Ela queria descobrir sua própria linguagem.
Another Mind: o nascimento de uma nova voz
Em 2003, veio o álbum Another Mind, seu primeiro trabalho internacional. O disco apresentou ao mundo uma pianista que parecia não ter interesse em escolher apenas um caminho. Jazz estava ali. Música clássica também. Rock, música contemporânea, virtuosismo e improvisação faziam parte do mesmo universo.
Uma pianista que transformou velocidade em linguagem. Nos trabalhos seguintes, Hiromi desenvolveu uma identidade cada vez mais reconhecível. Álbuns como Brain, Spiral, Time Control e Beyond Standard mostraram uma artista interessada tanto na complexidade musical quanto na comunicação com o público. Sua técnica é impressionante, mas o mais interessante não é simplesmente a quantidade de notas que ela consegue tocar. É a maneira como utiliza a técnica para construir narrativa.
Do trio ao universo do jazz contemporâneo
Ao longo dos anos, Hiromi continuou modificando suas formações. Passou por diferentes configurações de trio, trabalhou com grandes músicos e também desenvolveu projetos solo. Em 2008, lançou Duet, trabalho realizado com Chick Corea. Em 2011, participou do Stanley Clarke Band featuring Hiromi, álbum que recebeu o Grammy de Melhor Álbum de Jazz Contemporâneo. Essas colaborações mostram uma característica fundamental de sua carreira: Hiromi nunca deixou de dialogar com diferentes gerações do jazz. Ela consegue conversar com músicos que construíram a história do gênero e, ao mesmo tempo, apresentar uma linguagem que pertence claramente ao século XXI.
A mão esquerda pode criar uma linha de baixo poderosa enquanto a direita constrói acordes, melodias e frases extremamente rápidas. De repente, o instrumento deixa de parecer apenas um piano e passa a funcionar como uma pequena orquestra. Essa característica também explica por que suas apresentações ao vivo são tão importantes. Hiromi não é apenas uma artista para ser ouvida. É uma artista para ser vista. Seu corpo acompanha a música, suas mãos parecem participar fisicamente de cada frase e sua expressão muda junto com a dinâmica da composição.
Ela prefere descobrir o que pode acontecer amanhã.
Blue Giant: quando o jazz chega ao cinema
Em 2023, Hiromi assumiu a direção musical do filme de animação japonês Blue Giant, baseado no famoso mangá sobre jazz. O trabalho mostrou outra dimensão de sua criatividade: a capacidade de utilizar o jazz para construir personagens, emoções e narrativa cinematográfica. O projeto recebeu o prêmio de Melhor Música no Japan Academy Prize. Foi mais uma demonstração de que sua música ultrapassa o ambiente tradicional dos clubes e festivais de jazz.
Sonicwonder Hiromi nopresente
Em 2023 surgiu uma nova fase com Hiromi's Sonicwonder. A formação reúne Hiromi no piano e teclados, Adam O'Farrill no trompete, Hadrien Feraud no baixo e Gene Coye na bateria. O primeiro álbum, Sonicwonderland, apresentou novamente uma Hiromi mais elétrica, utilizando sintetizadores e teclados para construir uma sonoridade pesada, moderna e extremamente dinâmica.
O que Hiromi representa para o jazz contemporâneo
Hiromi representa, acima de tudo, liberdade. Ela mostra que o jazz contemporâneo não precisa escolher entre tradição e inovação. Pode existir swing e música clássica. Pode existir improvisação e composição rigorosa. Pode existir piano acústico e sintetizador. Pode existir jazz e rock. Pode existir virtuosismo e emoção. E talvez essa seja sua maior contribuição. Hiromi não tenta destruir a tradição do jazz. Ela conversa com ela. É possível ouvir ecos de grandes pianistas da história, mas também perceber uma personalidade completamente própria. Sua música carrega referências, mas não vive de nostalgia. Ela transforma essas referências em algo novo.
Em 2026, Hiromi continua ativa internacionalmente com o Hiromi's Sonicwonder, realizando apresentações e mantendo uma carreira que já atravessa mais de duas décadas. Seu próprio site registra novas turnês e atividades ao longo de 2026. E talvez seja justamente isso que torne sua trajetória tão interessante. Hiromi começou como uma jovem pianista japonesa apaixonada por música, estudou com grandes mestres, encontrou Chick Corea ainda adolescente, passou pelo Berklee, conquistou reconhecimento internacional e construiu uma carreira ao lado de alguns dos maiores músicos do jazz. Mas nunca parece ter chegado a um ponto em que pudesse simplesmente parar. Ela continua procurando. Continua experimentando. Continua mudando. E é exatamente por isso que Hiromi Uehara representa tão bem o jazz contemporâneo. Ela nos lembra que o jazz não é apenas um gênero musical.É uma maneira de pensar. Uma maneira de improvisar. Uma maneira de transformar aquilo que já existe em alguma coisa que ainda não existia.Hiromi não toca apenas jazz. Ela mostra até onde o jazz ainda pode chegar.
























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